A Crise Geopolítica e Seus Efeitos
A recente ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, ocorrida na madrugada do último sábado (03), originou um novo e complexo capítulo na geopolítica da América do Sul, que já começa a reverberar no agronegócio brasileiro. Embora a Venezuela não seja um dos principais parceiros comerciais do Brasil atualmente, o país havia iniciado uma lenta retomada das importações de produtos agrícolas brasileiros, que agora foram abruptamente comprometidas.
Entre 2021 e 2022, as exportações brasileiras para a Venezuela ultrapassaram a marca de US$ 1 bilhão por ano, com destaque para produtos como óleo de soja, açúcar, milho e arroz. O novo conflito interrompeu contratos em andamento, bloqueou embarques e reacendeu um temor já conhecido entre os exportadores: a inadimplência. A instabilidade política, a destruição de infraestrutura e as incertezas institucionais aumentam o receio de calotes e cancelamentos definitivos, levando empresas brasileiras a adotar cautelas, como exigir pagamentos antecipados e revisar sua exposição ao mercado venezuelano.
Setores do Agronegócio em Foco
Embora a Venezuela represente apenas 0,6% das exportações agropecuárias brasileiras em 2024, este mercado emergente vinha sendo considerado uma oportunidade de recuperação para o Brasil, especialmente em produtos essenciais. O impacto da crise, portanto, é tanto financeiro quanto estratégico, ao eliminar uma opção de diversificação das vendas externas do agronegócio.
No segmento de grãos e açúcar, as consequências são mais diretas. A Venezuela vinha aumentando suas compras de milho, arroz e açúcar, e a paralisação dessas exportações força agricultores e tradings a redirecionar suas cargas para outros destinos, o que pode pressionar os preços internos e elevar os custos logísticos no curto prazo. Apesar da pequena proporção das exportações totais, o efeito é sentido de forma mais intensa entre empresas que trabalhavam com margens financeiras menores.
No segmento de carnes, o cenário é um pouco mais contido. A Venezuela, que já foi um importante comprador de carne brasileira, viu sua demanda cair drasticamente na última década. Em 2014, o país importou mais de 360 mil toneladas de carnes; no entanto, em 2024, esse número despencou para apenas 5,2 mil toneladas, representando uma queda de 98,6%. Mesmo assim, frigoríficos que atendiam nichos específicos, como a carne de frango de menor valor, enfrentam agora perdas com a ausência desse mercado.
O Papel dos Fertilizantes e os Desafios Logísticos
Um dos pontos mais críticos da crise é a questão dos fertilizantes. Aproximadamente 45% das exportações da Venezuela para o Brasil consistiam em fertilizantes e derivados de petróleo. A interrupção desse fluxo pressiona os custos de produção em um país que já é severamente dependente de insumos importados. A necessidade de buscar fornecedores mais distantes ou mais caros pode impactar as margens de lucro, enquanto um choque prolongado no mercado de petróleo pode elevar os preços de combustíveis, fretes e operações agrícolas por todo o Brasil.
A situação logística se deteriorou rapidamente. Horas após os ataques, o governo venezuelano fechou a fronteira terrestre com o Brasil, especialmente na região de Pacaraima (RR), interrompendo o movimento de cargas e pessoas. Mesmo que o lado brasileiro tenha mantido a passagem aberta, o bloqueio venezuelano paralisou o transporte rodoviário, afetando desde pequenos comerciantes até grandes exportadores de alimentos e insumos.
Desafios e Oportunidades no Cenário Político
O governo brasileiro, liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, adotou uma postura diplomática cautelosa, condenando publicamente a ação militar dos EUA e defendendo a soberania regional. Essa posição, alinhada a outros países da América Latina, destaca a tradição diplomática do Brasil, mas pode gerar tensões com Washington.
O futuro comercial da aliança entre Brasil e Venezuela é incerto. Um potencial novo governo venezuelano alinhado aos interesses dos EUA poderia rever parcerias e limitar a presença de empresas brasileiras na reconstrução e no abastecimento do país vizinho. Enquanto isso, o Brasil procura manter canais de diálogo abertos e participar de fóruns multilaterais, como a ONU e o Mercosul, para preservar sua influência na região.
Conclusão: Um Teste de Resiliência para o Agronegócio
A crise desencadeada pelo ataque dos EUA à Venezuela representa um divisor de águas para a região e um teste de resiliência para o agronegócio brasileiro. Embora perdas sejam inevitáveis a curto prazo, essa situação também oferece lições estratégicas que podem fortificar o setor a longo prazo. A resposta a esses desafios exigirá uma coordenação eficaz entre o governo e o setor privado, priorizando proteção contratual, planejamento de riscos e a busca por novos mercados.
Independentemente dos desdobramentos políticos em Caracas, o agronegócio brasileiro mostrará sua capacidade de adaptação, tentando transformar a instabilidade externa em ajustes internos que fortaleçam sua competitividade e sustentabilidade.
