Retórica Bélica e sua Influência Global
O início de 2025 trouxe à tona um cenário preocupante para as relações internacionais. O ‘Relógio do Juízo Final’, que simboliza a proximidade de um holocausto nuclear, se aproxima da meia-noite, e a retórica bélica adotada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensifica essa tensão. Desde que assumiu novamente o cargo, Trump fez declarações que muitos analistas consideram cada vez mais ameaçadoras, ampliando a lista de países que estão sob sua mira. Entre os alvos de suas críticas estão nações como a Venezuela, Groenlândia, Nigéria, México e Colômbia, que têm enfrentado pressões severas do governo americano, especialmente no que diz respeito a medidas de cunho militar e econômico.
Fontes americanas revelaram que o primeiro ataque a ser mencionado por Trump contra a Venezuela foi, na verdade, orchestrado pela CIA, direcionado ao grupo criminoso Tren de Aragua, o que marca uma escalada nas ações contra o país sul-americano. A justificativa inicial de combate ao narcotráfico esconde uma estratégia mais ampla: a derrubada do regime atual por meio de intervenções diretas e bloqueios, como o que ocorreu com os petroleiros venezuelanos.
Um Novo Paradigma na Política Externa
Os analistas consultados pelo GLOBO ressaltam que essa abordagem bélica não é apenas uma tática de pressão, mas reflete uma mudança drástica nos princípios que historicamente guiaram a política externa dos Estados Unidos. A tradição de cooperação e respeito ao direito internacional, outrora fundamentais, parece ter sido substituída por uma retórica de força, que pode ser interpretada por adversários como um sinal de liberdade para expandir suas próprias ambições territoriais.
Segundo Flávia Loss, professora de Relações Internacionais na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, essa mudança no discurso permite que líderes como Vladimir Putin se sintam mais à vontade em suas ações, como a invasão da Ucrânia, e a China intensifique suas provocações em relação a Taiwan. Em suas palavras, ‘a retórica de Trump encoraja comportamentos mais agressivos por parte de potências rivais’.
Paz pela Força
A nova Estratégia de Segurança Nacional, divulgada pela Casa Branca, deixa clara a intenção do governo de justificar o uso da força em nome dos interesses americanos. Termos como “paz pela força” e “realismo flexível” são utilizados para legitimar ações que antes seriam vistas como inaceitáveis no cenário internacional.
Gunther Rudzit, professor de Relações Internacionais na ESPM, critica essa nova abordagem, afirmando que ‘o mundo baseado em regras e no direito internacional está se apagando, dando lugar à lei do mais forte’. O resultado disso pode ser observado nas políticas de Trump em relação à Groenlândia, onde ele chegou a sugerir uma compra da ilha, gerando tensões com aliados como a Dinamarca.
Coerção e Negociação
Loss argumenta que a retórica bélica de Trump também faz parte de uma estratégia de negociação que, ao invés de promover diálogo, utiliza a intimidação como ferramenta principal. ‘Ele sempre adota um tom elevado para ver até onde o adversário se submete’, explica a especialista. O padrão de tratamento diferenciado que Trump aplica entre países com menor poder relativo, como os da América Latina, é uma demonstração clara desse método coercitivo. Em casos como o do Panamá, a pressão americana levou o governo a se retirar de parcerias com a China, enquanto outros países, como México e Colômbia, sentiram a necessidade de se adaptar às demandas americanas.
Impacto Geopolítico e Interno
No entanto, as ameaças de Trump não se limitam apenas ao cenário internacional, mas também têm repercussões na política interna dos EUA. Os ataques verbais a países como Nigéria e África do Sul, por exemplo, são utilizados para reforçar sua imagem de força perante a base conservadora americana. ‘Embora nem sempre cumpra suas ameaças, ele as usa para projetar uma imagem de um governo rígido e forte’, conclui Loss.
