Caminhos para reimaginar o espaço urbano
As cidades modernas enfrentam um grande desafio: a mobilidade urbana. Historicamente, as áreas urbanas foram planejadas com uma abordagem que separa zonas industriais, residenciais e comerciais, criando uma estrutura que privilegia o uso de automóveis. Essa organização resulta em uma dependência de veículos motorizados, dificultando a conexão eficaz entre diferentes pontos da cidade.
No Brasil, o panorama do transporte revela que, segundo dados do IBGE de 2025, o automóvel é ainda o meio predominante para ir ao trabalho, representando 32,3% das escolhas dos brasileiros. O transporte coletivo, embora importante, aparece em segundo lugar com 21,4%, enquanto os deslocamentos a pé somam 17,8% e as motocicletas 16,4%. As bicicletas, por sua vez, são utilizadas apenas por 6,2% da população para esse fim.
Um reflexo dessa realidade é o espaço destinado aos automóveis nas cidades, que frequentemente é excessivo. Muitas vezes, os veículos ficam parados por até oito horas, ocupando áreas que poderiam ser utilizadas para outros fins, tanto sociais quanto econômicos. Essa prática não só compromete a eficiência do espaço urbano, mas também agrava problemas como a poluição e a insegurança nas vias.
A escolha do meio de transporte por parte da população é influenciada por diversos fatores, como segurança, conforto e tempo de deslocamento. Contudo, a atual infraestrutura viária prioriza os automóveis, desconsiderando as necessidades de pedestres e ciclistas. Consequentemente, a presença de veículos nas ruas contribui para a transformação de importantes eixos urbanos em espaços hostis, como evidenciado por locais na Grande Vitória, como a Avenida Jerônimo Monteiro e a Avenida Carlos Lindenberg.
A política e a necessidade de transformação
Para enfrentar esses desafios, a Política Nacional de Mobilidade Urbana, implementada em 2012, busca promover um acesso mais inclusivo e seguro às cidades. Essa política proposta sugere uma inversão na pirâmide da mobilidade, priorizando modos de transporte ativos, como caminhada e ciclistas, em detrimento do uso de carros.
Implementar essa transformação requer não só intervenções por parte das autoridades, mas também um esforço conjunto da sociedade, que precisa repensar a relevância do automóvel em sua rotina. A criação de “bairros completos”, onde as necessidades diárias possam ser atendidas em um raio de até 15 minutos, é uma das soluções propostas para tal mudança.
Para tornar esse modelo viável, é vital desenvolver e melhorar as redes de ciclovias e calçadas, integrando-as à arborização urbana e ao comércio local. A promoção de fachadas ativas nestes espaços não só atrai mais pessoas, mas também contribui para a segurança pública. Além disso, a integração dos modais ativos com o transporte coletivo pode ser uma estratégia eficaz para essa transição.
A educação como pilar da mudança cultural
No entanto, a jornada para uma mobilidade urbana eficiente é longa. A conscientização da população sobre os benefícios dessa transformação é um aspecto crucial. O ensino, especialmente nos cursos de Arquitetura e Urbanismo, desempenha um papel fundamental desse processo. Ao formarmos profissionais com uma visão crítica e comprometida com a cidade, é possível promover mudanças que valorizem o espaço público.
Como educadora na Faesa, acredito no potencial do conhecimento como ferramenta de transformação. A proposta é clara: trazer as pessoas de volta aos espaços públicos, por meio de projetos que revitalizem os trajetos do dia a dia. Criar ambientes que incentivem a caminhada e o uso da bicicleta deve ser o foco, promovendo não apenas a saúde, mas também a vivência social e a construção de uma comunidade mais unida.
Construir cidades mais vibrantes e saudáveis é um desafio que demanda um olhar atento às necessidades da população, onde a mobilidade não seja um obstáculo, mas uma oportunidade para uma vida urbana mais completa e prazerosa.
