Análise da gestão privada e suas implicações
A concessão dos portos capixabas à iniciativa privada, em março de 2022, marcou um novo capítulo na administração portuária do Brasil. A então Companhia Docas do Espírito Santo (Codesa) foi transferida ao controle da Vports, que se tornou a primeira autoridade portuária privada do país, responsável pelos portos de Vitória, Vila Velha e Barra do Riacho, em Aracruz, por um período de 35 anos. O movimento visava implementar um projeto-piloto que pudesse servir como referência para futuras desestatizações nas demais companhias docas federais.
A proposta do Governo Federal era testar a viabilidade da gestão privada em um setor historicamente dominado pela presença estatal, com o intuito de trazer mais agilidade nas decisões, aumentar os investimentos, reduzir a burocracia e melhorar a competitividade. Contudo, após quatro anos de concessão, surgem questionamentos sobre por que o modelo Vports ainda não se espalhou por outras regiões do Brasil.
Os resultados iniciais da Vports, conforme relatado pelo CEO Gustavo Serrão, demonstram uma transformação positiva nos portos de Vitória e Vila Velha. Ele destaca que, desde o início da concessão, a empresa firmou 18 novos contratos, com investimentos que totalizam cerca de R$ 1,5 bilhão, entre os já realizados e os planejados até 2027. Esses aportes, segundo Serrão, não apenas aumentaram a produtividade e a competitividade, mas também resultaram em recordes sucessivos na movimentação de cargas.
Um dos principais avanços foi a ampliação dos portos para receber navios de grande porte, com capacidade para até 83 mil toneladas, resultando em um aumento considerável da competitividade dos portos capixabas. Desde a transferência da concessão, houve um crescimento acentuado nas importações, no número de atracações e na movimentação de contêineres, culminando em 2025 com recordes de cargas importadas, especialmente veículos. Durante o ano, 215 mil unidades de automóveis foram desembarcadas pelos portos de Vitória e Vila Velha, destacando-se o mês de junho com uma movimentação excepcional de 49.650 veículos.
A mudança de gestão, portanto, não se restringiu apenas ao aspecto financeiro, mas promoveu uma reconfiguração nas práticas administrativas, refletindo-se em um ambiente mais ágil e propício para o desenvolvimento de diversas cadeias produtivas. A redução de entraves burocráticos e a atração de novos investimentos foram as principais mudanças observadas. Assim, diversas cargas experimentaram crescimento significativo após a concessão, com destaque para:
- Veículos (+269%)
- Trigo (+115%)
- Café (+104%)
- Carvão e coque (+93%)
- Granito em bloco (+76%)
- Offshore (+64%)
É importante frisar que, apesar dos resultados positivos obtidos até o momento, o modelo Vports ainda enfrenta resistência para ser replicado em outras áreas do Brasil. A cultura estatal enraizada na administração portuária e a hesitação de alguns governos em adotar a privatização como solução podem ser barreiras a serem superadas. As experiências bem-sucedidas de gestão privada devem atuar como exemplos positivos, mas a transformação de todo um sistema demanda tempo e alinhamento nas políticas públicas.
Assim, a questão que persiste é: o modelo adotado pela Vports será capaz de inspirar uma mudança de paradigma na política nacional de gestão portuária? O futuro dirá, mas a eficácia demonstrada até agora é um indicativo de que a privatização pode ser um caminho a ser considerado.
