Reflexões sobre a Expressão Urbana na Exposição Cicatrizes
A exposição Cicatrizes, de Ronaldo Gentil, levanta uma questão fundamental: como uma linguagem que surge da ilegibilidade se transforma ao ser apresentada em um espaço organizado para leitura? Essa indagação não admite uma resposta simples, e talvez seja exatamente por isso que a mostra, instalada na Casa Cultural 155, em Vila Velha, se configura como um campo de tensão criativa, em vez de uma resolução pacífica entre a rua e a galeria.
A Casa Cultural 155 é um espaço alternativo e independente, que aposta em uma programação voltada para produções que fogem dos grandes circuitos institucionais do Espírito Santo. Essa informação é crucial, pois expor em locais como esse implica em um ato que possui significados completamente diferentes aqueles encontrados em museus públicos ou galerias comerciais. Neste contexto, não há a mediação de um curador institucional que limite ou domestique o trabalho, nem a pressão de mercado que transforma a produção em investimento. Ao contrário, existe uma maior permeabilidade com o público que frequenta os mesmos territórios de onde surgem as obras. Essa proximidade se torna especialmente relevante quando falamos sobre uma produção oriunda da periferia da Grande Vitória.
Ronaldo Gentil, nascido em 1983 em Laranjeiras (Serra), cresceu imerso nas vivências diárias das ruas e nas paisagens conflituosas da região metropolitana. Para ele, a rua não é apenas um pano de fundo, mas sim um espaço fundamental para a formação de identidade. É perceptível que sua trajetória foi influenciada pelas mudanças que ocorreram nas décadas de 1990 e 2000, quando jovens da periferia começaram a explorar novos horizontes através das redes de contato dos movimentos culturais como funk, rock, punk e hip-hop. Neste último, Gentil se insere como um continuador e um intérprete. O vínculo com a visualidade clandestina das ruas, a intervenção no espaço urbano e o desejo de reivindicar o espaço público privatizado são marcas que caracterizam sua obra, imbuídas de sua visão fotográfica, do traço da tatuagem e do movimento dos corpos entre os espaços.
