Mudança Estrutural nas Regras de Crédito Agrícola
A partir do início de 2026, o seguro rural se tornará uma exigência fundamental para os produtores que desejam acessar créditos agrícolas. Essa mudança representa uma reestruturação significativa no sistema de financiamento do agronegócio brasileiro, afetando um mercado que soma R$ 516 bilhões, conforme informou o Ministério da Agricultura.
Com a nova regra, o funcionamento de bancos, cooperativas, seguradoras e produtores rurais deve passar por uma transformação, principalmente no contexto do Plano Safra 2025/2026. Especialistas apontam que essa exigência é parte de uma estratégia para transferir a responsabilidade pelo risco climático, que anteriormente era concentrada no setor público por meio do Proagro, para o mercado de seguros privado, que agora assume um papel central na gestão de riscos agrícolas.
Reconfigurando o Modelo Público e seus Impactos Financeiros
De acordo com os dados do Orçamento Geral da União, o Proagro terá um teto de R$ 6,61 bilhões em 2026, enquanto o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) contará com R$ 1,01 bilhão. Apesar da estabilidade no valor do PSR, o objetivo do governo é reduzir gradualmente a dependência de subsídios públicos e promover a utilização de seguros privados. Essa transição, no entanto, traz consigo desafios operacionais e custos adicionais para o setor produtivo, demandando maior eficiência na interação entre seguradoras e instituições financeiras.
“A obrigatoriedade do seguro requer que os processos operacionais funcionem em larga escala e dentro de prazos muito curtos. Se a integração entre o seguro e o crédito não for realizada de forma eficaz, o risco não será mitigado e isso pode impactar diretamente o acesso ao financiamento,” alerta Daniel Miquelluti, Head de Novos Negócios em Tecnologia, Gestão de Risco e Inovação em Seguro Agrícola da Picsel.
Desafios Operacionais e Necessidade de Integração Digital
Com a nova exigência, a liberação do crédito estará vinculada ao seguro, o que significa que as etapas de cotação, emissão, validação e vinculação de apólices precisarão ser realizadas dentro dos prazos estabelecidos pelo calendário agrícola. Problemas nesse fluxo podem resultar em atrasos na liberação de recursos, afetando negativamente o período de plantio e gerando consequências em cadeia para a produção agrícola.
Para mitigar esses riscos, a Picsel tem trabalhado em soluções digitais que automatizam etapas cruciais do processo, tais como análise e seleção de risco por propriedade, precificação individualizada, emissão e validação automatizada de apólices, além de suporte na regulação de sinistros. A meta é aumentar a previsibilidade e reduzir os custos operacionais, tornando o seguro mais acessível e funcional para agricultores e instituições financeiras.
Custos Fiscais e Retração da Cobertura Agrícola
O histórico do modelo público de seguro revela o quão desafiadora será essa transição. Entre 2020 e 2024, o Proagro desembolsou mais de R$ 26,8 bilhões em indenizações, o que evidencia elevados custos fiscais e uma baixa previsibilidade orçamentária. Apesar do aumento nos eventos climáticos extremos nesse período, a área segurada no Brasil diminuiu, o que evidencia limitações estruturais na expansão da cobertura de forma rápida e eficiente.
A nova obrigatoriedade exigirá, portanto, um esforço colaborativo entre governo, seguradoras e o setor financeiro para assegurar que a demanda crescente por apólices seja atendida, sem comprometer o fluxo de crédito rural.
Execução: O Fator Crítico para o Sucesso da Medida
Para Miquelluti, a efetividade dessa política pública dependerá da rapidez e eficiência na execução. “A obrigatoriedade do seguro só será bem-sucedida se o produtor puder contratar, integrar ao crédito e acionar a cobertura de forma previsível. Sem processos ágeis, essa exigência pode ocasionar fricções operacionais e perda de eficiência no crédito agrícola,” conclui.
Com a implementação dessa nova regra, o seguro rural deixa de ser um simples complemento e se torna uma parte essencial das operações financeiras do agronegócio, redefinindo a estrutura de riscos e oportunidades no campo.
