Transformações na Cobrança de Impostos do Agronegócio
A reforma tributária em andamento no Brasil é uma das mais significativas transformações no sistema fiscal do país nas últimas décadas. O objetivo principal dessa mudança é simplificar a cobrança de impostos sobre insumos, bem como sobre a produção e a circulação de mercadorias. Entretanto, o agronegócio, especialmente os pequenos e médios produtores, pode enfrentar um aumento nos custos de produção, caso a compensação de créditos tributários não seja ajustada de forma adequada.
A transição para o novo modelo, que introduz o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e o CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), promete reduzir a burocracia e oferecer maior previsibilidade para os investimentos, principalmente em bioinsumos e soluções sustentáveis, como microrganismos e biofertilizantes, que estão ganhando destaque na agricultura regenerativa.
Fellipe Parreira, que atua no Portfólio e Acesso do Grupo GIROAgro, enfatiza que o avanço dos bioinsumos possui o apoio das políticas públicas que incentivam práticas agrícolas mais responsáveis. Recursos do Plano Safra, por exemplo, estão sendo direcionados para produtores que investem em tecnologias com menor impacto ambiental, além de iniciativas estaduais e federais que fomentam a pesquisa e o desenvolvimento de novas soluções biológicas.
Modificações na Tributação de Fertilizantes
Antes da reforma, os fertilizantes contavam com isenções ou desonerações parciais, como o Convênio ICMS 100/97, que possibilitava a redução ou até mesmo a isenção total da carga tributária sobre esses insumos. Com a implementação do IBS e do CBS, os fertilizantes agora terão uma alíquota reduzida a 60% do padrão, o que elimina a “tributação zero” que era, até então, seletiva.
Estudos realizados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) indicam que a participação dos fertilizantes na carga tributária do agronegócio pode saltar de cerca de 5% para até 28% do total atual. Dado que os insumos representam aproximadamente 25% do custo de produção de culturas como soja e milho, essa alteração poderá adicionar entre 2 e 3 pontos percentuais ao custo total. Embora os produtores possam recuperar créditos, eles devem se preparar para possíveis impactos no fluxo de caixa durante a transição, programada até 2032, sendo que pequenos produtores continuarão isentos.
Desafios e Oportunidades no Setor de Bioinsumos
A modificação na tributação de insumos, tanto químicos quanto biológicos, poderá pressionar as margens de lucro, que já enfrentam desafios devido à sazonalidade e aos riscos climáticos. Contudo, essa reforma também abre portas para alinhar o mercado brasileiro aos padrões internacionais, o que pode beneficiar produtos de maior valor agregado, como os bioinsumos.
Empresas do setor ressaltam a importância de manter um diálogo constante com o governo. Se implementada de maneira eficiente, a reforma pode modernizar o agronegócio; caso contrário, poderá encarecer insumos e comprometer a sustentabilidade econômica do setor.
Perspectivas da Safra e Condições de Mercado
De acordo com o relatório do Radar Agro Itaú BBA, a produção nacional de soja deverá alcançar a impressionante marca de 180 milhões de toneladas, impulsionada por boas condições climáticas e rendimentos superiores à média nas regiões de Mato Grosso e Paraná. A Argentina também deverá colher bem, o que elevará a oferta mundial e limitará as altas nas cotações da soja na Bolsa de Chicago.
Embora a demanda externa tenha registrado um aumento significativo em janeiro, com embarques 129% superiores aos do mesmo mês de 2025, a expectativa é de que os prêmios de exportação diminuam conforme cresce o volume disponível.
Impactos do Câmbio e Custos Logísticos
O câmbio tem sido um fator crucial na definição dos preços internos. A valorização do Real, que se manteve abaixo de R$ 5,30/USD, levou o preço da soja no Mato Grosso a cair para menos de R$ 100 por saca. Simulações feitas pelo Itaú BBA indicam que, com um câmbio a R$ 4,50/USD, o preço da saca poderia despencar para menos de R$ 90, evidenciando a influência direta da taxa de câmbio na renda dos produtores rurais.
Apesar do início da queda da taxa Selic, o relatório prevê que o câmbio pode encerrar 2026 em torno de R$ 5,50/USD, refletindo uma desvalorização gradual da moeda brasileira devido a incertezas políticas internas.
A colheita da soja avança em um ritmo acelerado, mas desigual entre as diferentes regiões. Segundo a Conab, até o início de fevereiro, 10% da safra já havia sido colhida, com destaque para o Mato Grosso (33%). Entretanto, o excesso de chuvas no Centro-Oeste tem atrasado a colheita em algumas áreas.
Por fim, a demanda chinesa e as novas diretrizes sobre biocombustíveis trazem uma certa esperança ao mercado, proporcionando um alívio nos preços. No entanto, os custos logísticos elevados e a comercialização lenta da safra 2025/26 ainda representam preocupações para os produtores.
