Controvérsias nas Metas de Emissão do Agronegócio
Em 9 de fevereiro de 2026, o Governo Federal, por meio do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, revelou o Plano Clima, que permite um aumento nas emissões de gases do efeito estufa no agronegócio até 2030. As diretrizes apresentadas têm como foco reduzir as emissões totais do Brasil e adaptar o País aos desafios impostos pela crise climática até 2035.
A proposta gerou uma onda de críticas, principalmente em relação às metas setoriais de emissões. Enquanto setores como Cidades e Uso da Terra terão que implementar cortes significativos, o agronegócio, incluindo Agricultura e Pecuária, poderá não apenas manter, mas até ampliar suas emissões ao longo da próxima década. Segundo dados do documento, a meta para a agropecuária em 2030 indica um aumento de 1% nas emissões líquidas em comparação a 2022, elevando as emissões de 643 para 649 milhões de toneladas de CO₂ equivalente.
Contrastes entre Setores e Desmatamento
Em um cenário oposto, o setor responsável pela Mudança de Uso da Terra, que está diretamente relacionado à expansão agropecuária, deverá implementar cortes profundos nas emissões. O Plano Clima estipula que as emissões em terras públicas devem ser reduzidas em até 140%, enquanto áreas rurais privadas terão um corte de 70% até 2030, focando em controlar o desmatamento ilegal.
O documento adota uma abordagem voltada à intensidade das emissões ao invés de cortes absolutos. Essa escolha é justificada pela relevância econômica do agronegócio, que representa 23,5% do PIB brasileiro e 49% das exportações. As medidas propostas incluem a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), uso de bioinsumos e recuperação de áreas degradadas, mas não apresentam metas claras para a redução do rebanho ou do metano gerado pelos animais.
Pressão sobre o Agronegócio e Responsabilidades
Anna Cárcamo, especialista em política climática do Greenpeace Brasil, critica essa abordagem, alegando que ela diminui a responsabilidade do agronegócio no combate ao desmatamento, como já estabelecido pelo Código Florestal. A especialista ressalta que o custo dessa política recai sobre o governo, uma vez que o agronegócio conseguiu transferir a responsabilidade de combater o desmatamento para o setor público, ao mesmo tempo que continua a receber incentivos que, no final, serão financiados pela sociedade.
Cárcamo enfatiza que a efetividade do Plano Clima depende de condições ainda não garantidas, como a necessidade de um orçamento robusto para implementar as metas nos diversos setores da economia. Ela destaca a importância de ações concretas, acompanhamento transparente e a participação da sociedade para assegurar a redução das emissões.
Futuro das Emissões e Desmatamento
O Plano Clima prevê que a agropecuária aumentará sua participação nas emissões nacionais, passando de 30,5% em 2022 para aproximadamente 50% em 2030. Além disso, a viabilidade das metas brasileiras está atrelada à erradicação do desmatamento ilegal até 2030. O documento propõe que, se o desmatamento for zerado, o setor de Uso da Terra poderá se tornar um sumidouro de carbono, alcançando um saldo negativo de –181 milhões de toneladas de CO₂ equivalente até 2030, o que compensaria o fato de que a agropecuária continuará emitindo 649 milhões de toneladas no mesmo período.
Avanços nas Diretrizes e Desafios Locais
Apesar das controvérsias, Rodrigo Jesus, porta-voz de justiça climática do Greenpeace Brasil, reconhece avanços nas diretrizes do Plano Clima. Ele menciona iniciativas de prevenção a desastres climáticos, priorizando áreas vulneráveis, além de propostas que facilitam o acesso a crédito para pequenos agricultores em investimentos em energia solar, sistemas agroflorestais e irrigação.
Contudo, Jesus alerta sobre as dificuldades de execução que surgem principalmente em níveis estaduais e municipais. Barreiras no financiamento, a necessidade de espaços para participação social e a formação de equipes técnicas são desafios que ainda precisam ser superados. Para ele, a governança interfederativa deve ser fortalecida, com a definição clara de papéis e responsabilidades, garantindo que as medidas cheguem efetivamente à escala local.
