Novas Regras de Correção Geram Controvérsias entre Estudantes
Vinícius de Oliveira, estudante do 5º ano de medicina e mentor de vestibulandos, participa do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) todos os anos. De 2021 a 2024, suas notas na redação foram, nesta sequência: 900, 960, 980, 920 e 940. Contudo, em 2025, ele obteve apenas 760 pontos.
“Nem quando fiz a prova só por diversão tirei essa nota. É muito estranho. A impressão que fica é de que a correção foi aleatória: alguns corretores foram mais rigorosos, enquanto outros foram mais flexíveis”, desabafa Vinícius.
Outro aluno, Guilherme*, de 23 anos, expressou sua insatisfação ao ver sua nota cair para 740 pontos, após nunca ter obtido uma pontuação abaixo de 900. “Não utilizo modelos prontos de texto. Não desaprendi a escrever no dia da prova, e não estava nervoso. O Enem se tornou uma verdadeira confusão”, critica.
Essas situações levaram muitos candidatos a questionar mudanças nos critérios de correção da redação do Enem 2025. Desde a divulgação das notas em 16 de janeiro, centenas de relatos nas redes sociais evidenciaram quedas de desempenho, alimentando ainda mais essas suspeitas. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que coordena o exame, negou qualquer alteração nos critérios.
O g1 teve acesso a documentos confidenciais, incluindo e-mails e depoimentos de corretores, que indicam três mudanças significativas na correção em 2025, que podem ter afetado a avaliação dos textos:
Critérios de Coesão e Coerência Alterados
A primeira modificação se refere à regra mais ampla na competência 4, que avalia o uso de elementos coesivos, como “dessa forma” e “consequentemente”. O que anteriormente era uma contagem matemática desses termos para determinar a nota do aluno foi transformado em uma análise mais subjetiva. Os corretores passaram a classificar a presença dessas expressões como “pontual”, “regular”, “constante” ou “expressiva”.
“Perdemos um parâmetro claro. Antes, havia uma orientação mais definida, mas agora cada corretor interpreta de maneira diferente”, relatou um corretor anônimo.
Punições Mais Severas por Falta de Elementos na Proposta de Intervenção
Outra mudança significativa na redação de 2025 foi o aumento da punição na competência 5 para os alunos que não incluíram o elemento “ação” em suas propostas de intervenção. Neste item, o candidato deve apresentar cinco componentes: ação, agente, finalidade, meio e detalhamento da ideia. Enquanto a exclusão de qualquer um dos cinco itens resultava em uma perda padrão de 40 pontos, uma nova diretriz estabeleceu que a falta do item “ação” acarretaria uma penalização maior, de 120 pontos.
“Muitos alunos confundem o item ‘ação’ com a ‘finalidade’. Isso resultou em uma perda maior de pontos do que o esperado. E o Inep ainda afirma que não houve modificações?”, questionou um corretor.
Repertório Sociocultural: Peso Aumentado na Avaliação
A terceira alteração diz respeito ao peso dado ao repertório sociocultural. Apesar de o manual do candidato não ter mudado a grade de correção em relação a esse aspecto, um documento enviado aos corretores após os treinamentos indicou que a competência 2 deveria estar interligada à 3. Ou seja, repertórios socioculturais avaliados negativamente pela banca passaram a ser penalizados em duas competências, em vez de uma.
Corretores ouvidos relataram que essa mudança foi a principal razão para a queda abrupta nas notas de muitos alunos.
Inep Reafirma que Não Houve Alterações
Em resposta, Manuel Palacios, presidente do Inep, afirmou ao g1, no final de janeiro, que “não houve mudança nos critérios de correção. Os corretores e a instituição aplicadora são os mesmos. A equipe de capacitação é do Inep e utilizou os mesmos critérios de sempre.” Adicionalmente, o Inep enfatizou que as provas são corrigidas por ao menos dois avaliadores, com uma terceira correção prevista em caso de divergência, garantindo assim, equilíbrio e justiça a todos os participantes.
Consequências das Mudanças Não Comunicadas
Uma situação sem precedentes ocorreu com a implementação do Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que agora aceita as notas das últimas três edições do Enem (2023, 2024 e 2025) para a classificação de alunos em universidades públicas em 2026. Aqueles que fizeram o exame pela primeira vez e só puderam competir com a nota de 2025 se sentiram prejudicados, competindo com alunos que supostamente tiveram avaliações mais benéficas. “É como comparar banana com maçã. A correção de 2025 foi mais rigorosa e subjetiva do que nos anos anteriores”, observa Sérgio Paganim, coordenador de redação do Curso Anglo.
Luana*, aos 24 anos, viu sua nota cair de 920 (2023) e 940 (2024) para 720 (2025). “Isso não é uma evolução negativa, mas sim uma instabilidade no processo avaliativo”, analisa.
Gabriel Gaspar, que foi aprovado em medicina na Universidade de São Paulo (USP), através de seu vestibular, compartilha: “Desisti do Sisu depois que percebi minha nota na redação do Enem cair de mais de 900 para 700 e poucos. Se eu dependesse apenas dessa prova, teria perdido mais um ano inteiro de preparo.”
Condições de Trabalho dos Corretores
As mudanças não comunicadas e recentes, aliadas às precárias condições de trabalho dos corretores, que geralmente recebem cerca de R$ 3 por cada texto corrigido e enfrentam a leitura de até 200 dissertações em um único dia, podem agravar a situação. “Durante os treinamentos, havia muita confusão sobre as diretrizes. Muitos corretores se perguntavam sobre o que tinha mudado. A comunicação era falha”, relatou uma corretora.
O g1 tentou entrar em contato com o Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos (Cebraspe), responsável pela correção das redações desde 2023, mas somente o Inep pode fornecer respostas sobre o Enem.
O Inep, por sua vez, não respondeu às perguntas relacionadas à remuneração e à carga de trabalho dos corretores.
