A Transformação de Vila Velha em um Centro de Desenvolvimento Cultural
Durante anos, a ponte que liga os municípios de Vitória e Vila Velha foi vista como um símbolo de deslocamento em busca de cultura e entretenimento. No entanto, essa dinâmica está mudando. Hoje, o fluxo se inverte: os investimentos estão se concentrando em Vila Velha, atraindo olhares e visitantes em busca de sua efervescente cena cultural. A cidade se consolidou como um destino cultural significativo, erguendo-se como a nova capital simbólica do Espírito Santo. Essa transformação sublinha o papel da cultura como um vetor de desenvolvimento econômico.
Um estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), intitulado “O Impacto de Choques no Setor Cultural Brasileiro”, revela que mudanças no consumo cultural geram repercussões diretas na produção, rendimento e emprego de toda a economia. Em termos simples, cada real investido no setor cultural tem um retorno positivo, não apenas nas artes, mas também em serviços complementares a exemplo de hotelaria, transporte e comércio local.
Além disso, a pesquisa da Universidade Federal Fluminense de 2018, “Avaliação dos Impactos Econômicos de Eventos Locais a Partir do Modelo Input-Output”, reforça essa ideia ao mostrar que festivais e eventos culturais têm efeitos diretos e induzidos na economia. Os dados indicam que, para cada real investido em cultura, há um retorno superior a um real na economia da região, fortalecendo cadeias produtivas e estimulando o consumo em áreas como transporte, alimentação e hospedagem.
Em Vila Velha, essa lógica se materializa por meio de ações concretas. A prefeitura tem se empenhado em fortalecer o ecossistema cultural por meio de editais, capacitação e requalificação de espaços públicos. Isso é complementado por parcerias entre o setor público e privado, além de recursos que vêm de instâncias nacionais e fundos culturais. O que antes era visto como uma carência agora se transforma em investimento externo que circula e se desdobra internamente, beneficiando a cidade e seus cidadãos.
O Movimento Cidade, idealizado para colocar Vila Velha em evidência no cenário cultural brasileiro, tem sido um marco dessa nova fase. Artistas de renome nacional se apresentaram na cidade, ao lado de talentos locais, criando uma rede de visibilidade que potencializa a cena cultural capixaba. Essa sinergia entre o que é trazido de fora e o que é cultivado localmente reforça o papel da cidade como um espaço dinâmico e criativo.
Um exemplo emblemático dessa transformação é o festival Delírio Tropical, que se tornou um importante evento na cena independente. Com uma curadoria voltada para a produção autoral capixaba, o festival não apenas valoriza a identidade local, mas também projeta novos artistas para além das fronteiras do Espírito Santo. A iniciativa demonstra como o investimento em cultura pode gerar resultados diretos na cena local, unindo músicos, produtores, técnicos e o público em torno de um mesmo ideal.
Além dos grandes festivais, editais recentes têm contemplado uma ampla gama de projetos, como dança, literatura, artes visuais, cultura popular, e produções audiovisuais. Esses esforços elevam o protagonismo dos vilavelhenses e atraem parceiros externos, colocando o município em pé de igualdade com circuitos culturais maiores.
A travessia simbólica representada pela ponte, que antes era um caminho de saída, agora se transforma em um caminho de retorno, sublinhando não apenas a poética, mas também a política urbana. O renascimento da autoestima, do pertencimento e da identidade cultural local se reflete na afirmação de que Vila Velha é um palco, uma origem e um destino. Aqui, o valor da cultura vai muito além do econômico; ele está enraizado na valorização de quem somos.
Viva Vila Velha! Viva o Espírito Santo!
